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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Adeus, vó-bisa Lila!

Minha avó Lila, mãe do meu pai, descansou nesta sexta dia 5 de setembro.
Era minha avó, minha avózinha Lila, bisa de Inaê e Rudá... porém de certa forma já não era... Não mais a avó com quem convivi durante toda a infância e de quem guardo lembranças queridas...
Há muitos anos ela já estava sofrendo com o maldito mal de Alzheimer, o que fez com que fosse escapando aos pouquinhos de nós... até não mais nos reconhecer, depois não conseguir mais se comunicar, depois sequer andar...


A memória que guardo e guardarei, como a neta mais velha, que pôde conviver mais tempo com ele (e inclusive com meu avô Alfredo, que morreu muito novo), e apesar da distância (eu crescendo em Brasília, eles morando em Porto Alegre), pois sempre tinha a oportunidade de passar férias com eles, é de estar no apê da Rua da Praia, minha avó me indicando livros de sua incrível biblioteca, leitora voraz que era (me lembro em especial de sua paixão por S. Zweig e os primeiros contos que dele li através dela).


Era uma incrível contadora de histórias que havia vivenciado, e me fascinava seu espírito crítico e agnóstico, a partir dos questionamentos por ter estudado em colégio de freira - será que a influência depois pro ateísmo convicto do meu pai, que também passou pra mim e meu irmão? Ao mesmo tempo, tinha uma coleção incrível de episódios e sonhos, envolvendo pessoas conhecidas e desconhecidas, que evocavam aqueles contos clássicos sobre espíritos, ocultismo, e tudo o que não podemos explicar...
Histórias de situações ou acidentes com pessoas conhecidas e desconhecidas com as quais ela sonhava, e no dia seguinte ficava sabendo que tinham acontecido de verdade...
Nunca saberei ao certo o que aconteceu nestes episódios que ela relatava, porém eram definitivamente relatos que me prendiam tanto a atenção que por um tempo, numa das viagens ainda adolescente, até pensei em coletar tudo e colocar por escrito... (pena não ter feito).



Nas minhas lembranças, ela tinha a personalidade forte, era elegante, e gostava de ser independente. Após ficar viúva preferiu permanecer morando sozinha, no apê em que ficou até dois anos atrás, quando não havia mais a menor condição de que ela permanecesse lá, mesmo com ajuda de enfermeiras... De lá, foi para uma casa especializada de atendimento de idosos, porém acho que foi a decisão mais acertada dos seus filhos (e em particular de minha tia Márcia, a única filha, e que cuidou mais de perto da mãe mesmo morando em outro país - já que a função do cuidado acaba na maioria das vezes sendo mesmo uma questão de gênero) que ela tivesse ficado até não dar mais lá no seu pequenino apê. Pois minha avó de espírito teimoso e opiniões firmes não teria aceitado ter ido, ainda lúcida, pra uma casa de idosos... Lá chegando, até ficou melhorzinha um tempo, mas depois a doença foi ganhando espaço de novo, e cada vez mais...

Passou por muitos momentos duros, o mais cruel a perda trágida do filho caçula, meu tio Beto em 2009... Quiçá ali a doença do esquecimento tenha encontrado as portas abertas pra entrar com tudo, pois como viver lembrando de uma saudade assim?
Nos últimos anos, já não nos reconhecia, nem mesmo seus filhos. Foi nossa última imagem dela, já na casa que foi seu último lar. Infelizmente, pra nossa imensa tristeza, não pôde conhecer o Rudá - e nem o teria reconhecido como bisneto (e morreu poucos dias dele completar 1 aninho e eu 38... e se foi em setembro, assim como minha outra vó, Nélia, há 1 ano atrás).

Mas mesmo nesta ocasião de nosso último encontro, quando Inaê tinha pouco menos de 3 anos, e que está registrada aqui nas últimas fotos, ainda revelava sua grande afetividade. Tinha adoração pelo "neto" Angel, assim como minha outra avó (um conquistador de vovós, ele que não conviveu com nenhuma das suas...) e mesmo já com o mal avançado, demonstrava seu carinho conosco... Teria vislumbrado algo do passado?

Mas eu, que a conheci na sua outra vida, quando era a minha avó Lila, prefiro guardar a imagem da vó que viajava comigo e vô Fredo pra Gramado ou pra praia de Cidreira, que me apresentava livros e contava histórias incríveis, que frequentava a Universidade da Terceira Idade com vigor e alegria, que nos recebia com amorosidade e sorrisos mil em sua casa em nossa idas a POA, seus olhos verdes brilhantes e vivos...

Saúdo esta lembrança como a lembrança verdadeira da nossa querida Lila, avó e bisavó, e que sua presença permaneça entre nós e também entre os bisnetos pra quem contarei as histórias incríveis daquela bisa...

PS: Lila morreu no mesmo dia de nascimento do meu vô Alfredo, o grande amor da sua vida, e por quem ela chorou longo tempo quando ele se foi ainda jovem (eu tinha uns 12 anos)... Quando comentei isso com minha mãe, que me deu a notícia, ela disse "ele veio buscá-la". E assim gosto de acreditar, igualzinho como se fosse em mais um dos contos ou relatos com toques de espiritismo que a vó me contava...

VIVA LILA! Saudades...
(29 de dezembro de 1929 - 5 de setembro de 2014)

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