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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

a escola, o "mês das crianças" e o consumismo infantil

Este ano não deu pra fazer um texto específico pra campanha sobre o Dia das Crianças do movimento Infância Livre de Consumismo. Então anexo aí abaixo a cartinha que fiz e enviei pra escola da minha filha na semana passada - uma forma de fazer o meu trabalho de formiguinha, buscando chamar pra refletir e agir quem participa diretamente do cotidiano da família!

OBS: a série de imagens acima (que ficaram lindas!) são da campanha do movimento ILC, passa lá pra se informar mais!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

dia das crianças: compartilhe brincadeiras!

A Inaê tem 2 anos e 7 meses, e ainda não está exposta à data comercial de “dia das crianças”. Na verdade, ela sequer sabe que existe um “dia das crianças”, inventado pra vender (ainda mais) brinquedos. Pra ela, todo dia é dia das crianças, é dia de ser criança. E ninguém precisa de ganhar brinquedo novo pra isso!

É claro que ela tem seus brinquedos, alguns muito queridos, e que ela do alto de sua fase egocêntrica vai “proteger” possessivamente em certas situações, diante de certas crianças: “é meu!”. Não porque seja egoísta, óbvio, mas porque na sua idade ainda se considera o próprio centro de seu mundo.

Tem até brinquedos de mais valor afetivo, como a boneca Ana Luísa que foi da mamãe (e agora a vovó acaba de levar de volta pra Brasília pra consertar no hospital dos brinquedos, pra que ela dure mais um tantão), ou a sua indefectível gatinha de pano, “herdada” da amiga Toy depois que ela se apegou de um jeito nunca visto antes, e que atualmente ela leva pra cima e pra baixo (mas sem chamar de Hello Kitty, pois ela nem sabe que é uma marca, e pra ela é simplesmente “minha filha” ou “minha gatinha” e mais recentemente, passou a ser Clarice, ou melhor: Calice).

Mas o mais importante pra ela – como pra qualquer criança – é mesmo o brincar. Ou seja, mais a situação (e a companhia) do que os objetos em si.

E, como por ora fizemos essa opção de acompanhar de modo integral sua criação, talvez seja mais fácil observar de perto o papel destes brincares no seu cotidiano de ser criança.

Aí vão alguns exemplos caseiros pra refletir e compartilhar:

* Criança não precisa possuir o brinquedo novo pra se divertir com ele: claro que criança gosta de novidade, ué! Mas isso não significa que ela precisa ganhar todo novo brinquedo que desperte seu interesse, não é? Muita gente confunde isso e quer comprar tudo que parece ter acabado de interessar a criança. Algumas crianças, dependendo do histórico de carência afetiva, percebem isso e ficam pedindo tudo que veem, e aí qualquer ida ao supermercado vira um pesadelo. E depois, no caso de quem pode comprar, fica aquele monte de bugiganga que a criança nem dá valor.
A Inaê anda comigo pra cima e pra baixo (até porque não tem como ser diferente), e a gente entra nos lugares, inclusive loja de brinquedo, e se for o caso, ela vê, até pega, mata a curiosidade, e no fim vai embora sem levar, e tudo certo!

Mas tem umas ideias que eu acho geniais, por ex. brinquedotecas e bibliotecas públicas, em que dá pra curtir brinquedos, livrinhos e brincadeiras, frequentemente pedagógicos e/ou artesanais, e muitas outras crianças também poderão curtir isso. Não é demais?
Na falta de (muitos) mais espaços coletivos e públicos assim, dá pra improvisar, e eu já frequentei muita seção infantil de livraria pra gente se divertir por horas sem precisar consumir.

Outra ideia bacana são feiras de trocas de brinquedo, como as promovidas em várias cidades do Brasil no último 6 de outubro por voluntários, a partir de um convite lançado pelo Instituto Alana e apoiado pelo movimento Infância Livre de Consumismo (e se a gente estivesse em Brasília teria ido aí ao Jardim Botânico com certeza!).

* Imaginação vale mais que brinquedos prontos: essa parece meio lugar-comum, mas até quem tenta estar atento a isso às vezes se surpreende com o poder da criatividade infantil. Sabemos que criança não precisa de boneca que fala sozinha, nem de carrinho que anda por controle remoto. Por aqui a gente não tem nada disso, mas a Inaê tem suas bonequinhas, panelinhas etc. e é engraçado demais de vê-la inventando mil diálogos com suas bonequinhas, inclusive fazendo as diferentes vozes.

Mas o que a gente pode perceber nas atuais experiências muito ao ar livre e com maior liberdade pro brincar é que a viagem infantil vai muito além, e praticamente tudo vira brinquedo: qualquer graveto vira bonequinho, sementinha vira comidinha, coquinho vira panelinha, e assim vai. Pra não falar de todos os bichinhos que a fascinam, como formiguinhas, besouros, pássaros, peixinhos.
Aqui tenho me esforçado pra respeitar mais essa liberdade, inclusive pra sair um pouco do plástico made in china que acaba sendo meio onipresente mesmo quando a gente quer fugir dele e deseja partir pra matérias mais naturais, como madeira ou pano. Então, por ex. a Inaê até tem baldinho, pázinha etc. de ir à praia, mas tem sido fascinante ver como se diverte com coquinhos, frutas, conchinhas, pauzinhos, por isso se ela não pede eu agora nem tiro o baldinho da mochila.

Fazer os próprios brinquedos, usando sucata, tinta, cartolina etc., também é outra forma de exercitar essa imaginação, cada um dentro das suas possibilidades de trabalho manual, mas as possibilidades são infinitas. Eu por ex. sou mais da parte de desenhar e pintar, então vez por outra me aventuro por aqui, e até casinha já tentei fazer, com a ajuda dela!
 
* Vivências cotidianas podem virar brincares: criança vive num mundo lúdico, em que tudo pode se tornar brincadeira, até situações típicas do dia-a-dia que a rigor não o seriam. Criança não trabalha, mas como eu já falei aqui, criança pode ser envolvida de forma lúdica em tarefas ou situações que os adultos tenham que fazer naquele determinado momento. Além de ser um maravilhoso exercício do faz-de-conta, também é uma forma de envolvê-la no que os pais estão fazendo e aqui volta pra questão da presença dos pais que o movimento Infância Livre de Consumismo tão bem pautou neste texto. Criança brinca sozinha numa boa, mas muitas vezes ela quer a presença familiar pra brincar. Então, dá pra envolvê-la na feitura de um pão ou um bolo, ou na lavagem de roupa, ou qualquer outra tarefa da casa (como abrir côco ou mexer com a enxada, como os espertíssimos João e Tomás), obviamente adaptando de acordo com o contexto familiar, a faixa etária, e os próprios gostos da criança. A Inaê adora, e frequentemente depois a gente a vê reproduzindo a situação nas suas brincadeiras e historinhas.

Ou então, dá pra transformar em grande brincadeira alguma obrigação do cotidiano, algo que a criança inicialmente não estaria muito a fim, como por ex. aqui em casa escovar os dentes, mas aí com grande habilidade (paterna) ela acaba se divertindo e rindo um monte!

Só que às vezes a gente está com pressa de acabar algo, ou não está com tanta criatividade ou paciência assim (e todo mundo tem seus dias nublados, assim como eu tenho). Porém, o esforço vale a pena. Porque a escolha é nossa: pode-se insistir em acabar o que quer fazer e no fim acabar até gerando uma situação estressante pra todos. Ou pode-se tentar envolver a(s) criança(s), e, se não der certo, parar um pouco e dar a atenção que ela está pedindo, brincando do que ela realmente está a fim de brincar, e logo ela segue brincando sozinha ou de outra coisa, e aí sim você consegue acabar o que ia fazer com todo mundo numa boa tendo só atrasado um pouco, em vez de interromper tudo de vez!

E que a gente possa seguir compartilhando brincares com criatividade e envolvimento da família, amanhã e sempre, porque todo dia é dia de ser criança (até pra quem já cresceu).

(Esta postagem foi inspirada pela blogagem coletiva proposta pelo movimento Infância Livre de Consumismo. Você também pode participar e se informar mais aqui.)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Crianças, consumismo e carta aberta ao Conar


A Inaê tem 2 anos e 4 meses e nunca viu TV em casa.
Não é que a gente controle pra ela não ter acesso: é que a gente sequer tem TV mesmo, e isso já há tempos, desde muito antes dela nascer! A TV inexiste na nossa vida familiar.


Não significa que ela viva numa “bolha”, muito pelo contrário: trata-se de uma pessoinha totalmente imersa no mundo maravilhoso das historinhas, com acesso a muito conteúdo bacana que tô sempre garimpando por aí (e viva a internet!).


Sendo uma pequena criatura muito falante, com um desenvolvimento da linguagem que não cessa de surpreender, a Inaê passa os dias literalmente encarnando e interagindo com seus personagens preferidos, que vão dos mais clássicos (Pinóquio, 3 Porquinhos, Chapeuzinho, João e Maria, Peter Pan, Mogli etc.), passando pelo Sítio do Picapau Amarelo e as lendas brasileiras (Saci, Cuca, Iara, Curupira etc.), até o adorável Kirikou, aquele bebê mágico africano que vive mil e uma aventuras pra livrar sua aldeia da feiticeira!


Assim, entre suas referências, ao lado de zilhões de historinhas gravadas, lidas, contadas e recontadas, também estão muitos filmes e desenhos. Ela conhece bastante coisa bacana, e adora, e pede pra ver. Porém, só vê (no computador) o que selecionamos pra ela, e só nos momentos em que colocamos, em geral pra ver acompanhada.

Agora, na real, o que mais gosto dela não ver TV nem é pelos benefícios óbvios disso pro desenvolvimento de sua linguagem, nem por ser poupada da montanha de conteúdo medíocre e/ou inapropriado que passa na TV, mas acima de tudo: porque ela não está exposta a comerciais.


É simplesmente assombrosa a quantidade e conteúdo de comerciais direcionados às crianças, vítimas ainda mais indefesas do culto ao consumismo. Conheço pequeninos que dá até dó, nem 3 aninhos e já falando o tempo inteiro que “minha mãe vai comprar” isso e aquilo e mais aquilo outro, porque ele “viu na TV”... muito, muito triste. Qual lacuna será que esta mãe tá tentando (inconscientemente ou não) preencher ao inundar o menino de tanta bugiganga que no fim nem ele dá valor, porque já vai pedir o outro "último lançamento"?


Iniciativas sérias como o Movimento Infância Livre de Consumismo ou entidades como o Instituto Alana vêm agindo incansavelmente pra denunciar a questão gravíssima do estímulo ao consumismo na infância, mas este é um trabalho extremamente árduo, porque tem a ver com mudanças culturais e até pessoais.


Ocorre que, ao lado das ações de conscientização, há outras frentes possíveis de ação pra mudar este quadro no Brasil, como regulamentar, fiscalizar e punir - de verdade, e não de mentirinha. Uma regulamentação externa, porque se trata de uma questão pública, e não a dita "auto-regulamentação" hoje vigente no país, que no fim não controla nada.


Em outros países, a publicidade dirigida a crianças chega a ser proibida, ou então severamente limitada quanto aos horários e quantidade semanal.


No Brasil, porém, não tem nada disso, sendo que a criança brasileira é a que mais assiste TV no mundo: média de 4 horas e 51 minutos por dia, segundo o IBGE.


Estes e outros dados espantosos vêm do documentário “Criança, a Alma do Negócio”, dirigido por Estela Renner e Marco Nisti, que está disponível em vários lugares, por exemplo aqui. Quem quiser se aprofundar mais, pode assistir o documentário. Ele não é longo, mas se não der, faça um esforço ao menos pra ver o trailer do documentário, que já basta pra chocar.


Eu pelo menos fico bem chocada, e, pessoalmente, sou totalmente favorável à proibição legal de publicidade infantil, tipo como fizeram com comercial de cigarro.


O que não dá mais é pra esconder o sol com a peneira com estes argumentos pró auto-regulamentação do tipo "a própria família tem que fazer suas escolhas e controlar o que seus filhos vêem... blá blá blá" que de fato apenas servem aos mesmos interesses capitalistas de sempre.


O mais deprimente é que o capitalismo tomou pra si a bandeira da liberdade, pois, como já sabemos, é com esta aparência de "escolhas livres" que as coisas se sustentam. Quando se trata de crianças, sobretudo na primeira infância, pequenas pessoinhas com sua personalidade em formação, tudo isso não poderia ser mais nefasto.


Embora me preocupe com estes temas há tempos, e pra mim têm tudo a ver com as militâncias que levamos na economia solidária para criar outros paradigmas de produção e consumo, este post tem uma razão mais específica de ser, ainda que um pouquinho atrasado: o Movimento Infância Livre de Consumismo divulgou a carta aberta abaixo, e acaba de participar em audiência pública na Câmara sobre o PL que trata da regulamentação de publicidade infantil (a propósito, a primeira vez em que um coletivo de pais seria ouvido em Comissão que trata do assunto).


Humildemente, junto-me aqui neste singelo bloguinho familiar a este e outros coletivos, na esperança de que um dia as crianças, sobretudo as muito novinhas, possam ser protegidas como a Inaê pra que ter não seja mais importante em suas vidas do que ser... Simplesmente ser.... crianças! Ricas de imaginação, alegria e inocência, e não meros autômatos teleguiados.

Duas recentes medidas do Conar referentes aos abusos da publicidade voltada para as crianças nos deixaram preocupados e ainda mais descrentes da atuação deste órgão com relação à proteção da infância.


A primeira foi a decisão de sustar a campanha da Telessena de Páscoa por anunciar para o público infanto-juvenil um produto que só pode ser vendido para maiores de 16 anos (de acordo com regulamentação da SUSEP). A segunda foi a advertência dada pelo Conar à Ambev, com relação ao ovo de páscoa de cerveja da Skol.


Ambas atitudes do Conar seriam dignas de aplausos – se tivessem sido tomadas quando as campanhas publicitárias estavam no ar, na Páscoa, em março. Mas o Conar só agiu em junho, quando as campanhas já não eram mais veiculadas.


Com isso, não houve nenhum impedimento para que a mensagem indevida da Telessena atingisse impunemente milhões de brasileirinhos e que a Ambev promovesse bebida alcoólica através de um produto de forte apelo às crianças. A advertência à Skol é ainda mais ineficaz, pois não impede que no próximo ano, produto semelhante seja oferecido.


O Movimento Infância Livre de Consumismo vê nessas decisões a comprovação de que o atual sistema de autorregulamentação praticado pelo mercado publicitário brasileiro é lento, omisso e ineficiente. Fato ainda mais grave quando se trata da defesa do público infantil.


Por isso, exigimos que a publicidade infantil sofra um controle externo como todas as atividades empresariais. Reiteramos nossa postura de que, sem leis e punição, jamais teremos uma publicidade infantil mais ética.


Nós, mães e pais, exigimos respeito à infância dos nossos filhos e solicitamos que estas duas atuações não constem dos autos do Conar como casos de sucesso. Contabilizar pareceres dados depois que as campanhas saíram do ar, como exemplo da firme atuação do Conar, é propaganda enganosa. E isso contraria o tal Código de Autorregulamentação que os publicitários insistem em tentar nos convencer que funciona.


***
[Este texto faz parte de uma blogagem coletiva proposta pelo Movimento Infância Livre de Consumismo juntamente com blogs parceiros. Este movimento é composto por pais e mães que desejam uma regulamentação séria e eficiente da publicidade voltada para crianças. Para saber mais acesse: www.infancialivredeconsumismo.com.br]
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