Caco e equipe Profissão Repórter:
Acompanho de perto e desde o começo o caso da menina Dora Mendes Golfeto, apresentado na edição de ontem (31 de maio) do programa, e venho a público, como cidadã, profissional e mãe, questionar por que o programa se calou sobre tantas questões fundamentais.

Aparentemente, um programa “neutro”, mostrando os “dois lados”. Na prática, porém, tantas perguntas que não foram feitas (ou não se quis fazer), perguntas que ficam no ar e comprometem qualquer isenção, falam de um determinado ponto-de-vista.
Falta de informação? Decisão deliberada? O que sei é que, por conta dessas omissões ou equívocos, a matéria já nasce “viciada”.
Senão vejamos:
- Por que o pai tirou a filha da mãe, se não foi para cuidar dela?
Ei Caco, nem precisa afirmar tão veementemente que não, de jeito nenhum, que não vai dar o endereço de onde Dora mora agora.
Ora, qualquer mínima investigação de foquinha iniciante pode verificar que Dora foi levada pelo pai para morar com os AVÓS PATERNOS (José Hércules Golfeto e Ed Melo Golfeto) em Ribeirão Preto.
Antes morava com uma mãe amorosa e presente, Adriana Mendes, com quem levava uma vida absolutamente normal, boa em termos materiais e emocionais, boa escola, prestigiado corpo de balé municipal etc. Agora vive sem mãe e um pai de vez em quando, sabe-se lá quando.
Ah sim, o pai, Jonas Golfeto, deu o endereço de Ribeirão como sua nova residência... Então tá... só se for pra juiz e foca do Caco Barcellos ver!
Afinal, até o mundo mineral sabe que Jonas reside há mais de uma década em São Paulo, onde inclusive esteve em cartaz até o último dia 29 de maio com a Cia. Les Commediens Tropicales. Como assim? Mora em Ribeirão e trabalha em SP (336 km de distância)? Faz mais de 600 km diariamente? Ou, se não faz, quem cuida da filha?
Trabalhinho básico, bem básico, de checar informações. Não digo a coisa artificialmente montada pras câmeras, mas a história real, na lata, do que acontece no cotidiano de Dora: será que é mesmo este pai que está cuidando dela, levando-a à escola, participando de sua vida em todos os aspectos necessários?
- Por que não divulgar a última entrevista feita com Adriana, há poucos dias, mostrando que até hoje, quase 4 MESES depois, o pai nunca deixou a filha sequer falar ao telefone com a mãe, quanto mais encontrá-la pessoalmente?
O Profissão Reporter tinha este material e poderia ter mostrado. A cena em que ele arranca Dorinha da escola, ela chorando e pedindo desesperada pra falar com a mãe, é de cortar o coração. “Não, hoje não”, não vai falar com a mãe hoje.
Mas e depois, será que falou?
A resposta é NÃO! NUNCA MAIS!
De novo, investigaçãozinha básica, pessoal! Bastava a foquinha ter presenciado (e melhor ainda, ter registrado) a mãe ou qualquer outra pessoa tentar ligar pros telefones do pai ou da casa dos avós onde Dora mora em Ribeirão pra descobrir o que acontece.
Mas não fizeram (ou não quiseram fazer) isso, então vou falar o que acontece: faz quase 4 longos meses que qualquer telefonema de Adriana e de qualquer amigo que tente falar com Dora são sistematicamente desligados. Nada, nenhuma comunicação. Dorinha está sendo impedida de qualquer contato com a vida anterior que tinha, qualquer contato com sua mãe e sua irmãzinha de 2 anos.
Não usemos mais meias palavras, vamos dar nome aos bois: a menina está em uma espécie de cárcere, em situação de privação – ainda que numa rica casa, com zilhões de presentes e tudo o mais para garantir sua “adaptação”, ganhar uma câmera de filmar, poder usar sapatilhas de ponta (que, diga-se, não podia usar ainda em Santos, pois lá no Balé Municipal se preocupam com os pézinhos em formação e só permitem a ponta após os 10 anos...).
Ah, mas se poderia argumentar que Dora também não teve contato com Jonas todos estes anos com a mãe... Bom, uma coisa é quando a criança é impedida de ter contato como agora, outra é quando poderia ter e a criança nem queria, e não por qualquer tipo de pressão da mãe, pelo contrário: é só ver como Dorinha, sempre tão doce, tão gentil, tão educada (claro, foi a mãe quem a criou e educou!), no fim acaba indo com o pai, pra constatar que, mesmo sofrendo sistemática campanha de ódio e vingança, a mãe jamais usou a filha como instrumento dessa briga e a manteve imune a qualquer imagem negativa, qualquer fato que destruísse a figura do pai.
Tão diferente da lavagem cerebral praticada contra a mãe de Dora, com uma forcinha global, claro.
- Por que não investigar o contexto que levou à “fuga” (eu, como mãe, prefiro dizer a libertação) de Dora com a mãe anos atrás?
Uma criança de 3 aninhos que sofria alienação parental praticada pelo próprio pai, que a obrigava a só encontrar a mãe em um lugar insalubre e deprimente chamado “Visitário”? (eu sei como era, também disso sou testemunha porque lá estive visitando Dorinha, mas não gosto nem de me lembrar daquele lugar pra não ficar deprimida). Nada de encontros com a mãe em outros lugares mais alegres, nada de ir à casa da mãe, muito menos pernoitar com ela. Uma menininha de apenas 3 anos.
Sim, a mãe foi embora com ela. Mas é muito importante entender em qual contexto. Pois eu também sou mãe, e embora seja difícil especular sobre o que não se coloca de fato, sinceramente estou convencida de que, nestas condições-limite, faria o mesmo. E tenho certeza que muitas e muitas e muitas outras mães também, MÃES de verdade.
Mas esse contexto desesperador, com história do visitário etc. não interessa mostrar, porque poderia criar simpatia e solidariedade em relação ao ponto-de-vista da mãe, não é?
- Por que não contar que Jonas não só quer afastar a filha da mãe como também está tentando eliminar qualquer rastro da mãe na vida da filha, tendo pedido a “destituição de poder familiar”?
Sim, isso mesmo, ao contrário da imagem de pai bonzinho que o programa tenta construir, o ódio e a sede de vingança são tamanhos que Jonas deu entrada num pedido pra limar totalmente a mãe da vida da filha.
Gente, é chocante, atenção leitores: o nome da mãe seria inclusive retirado da certidão de nascimento de Dora! Simples assim! Apagar a existência da mãe da vida de uma criança por força de uma decisão judicial!
Acontece que um juiz de bom-senso percebeu o absurdo da situação e sumariamente extinguiu o processo, que ainda corria em SP.
Depois disso, Jonas transferiu o processo pra Ribeirão (além dele não cuidar da filha, deixando-a com os avós, o objetivo é, bem-entendido, dificultar ainda mais o contato mãe-filha e todos os trâmites judiciais) e, DE NOVO, entrou com processo pedindo a destituição do poder familiar, dessa vez na justiça de Ribeirão! Minhas deusas! É muito ódio pra uma pessoa só! Por que não mostrar isso na telinha do plim-plim?
Uai gente, óbvio, invalida a “tese” do programa!
- E aqui caímos na derradeira pergunta, não menos importante: por que tanto empenho em demonstrar a suposta isenção e neutralidade do programa?
Há claramente “teses”, baseadas em pressupostos cristalizados, a serem demonstradas – e tudo bem superficialmente, em 30 minutinhos. Nada é neutro por aqui. Comovente e um tanto patético o esforço da repórter Gabriela Lian pra “não tomar partido”. Gabriela é quase uma “veterana” da equipe de Caco, há 4 anos no programa. É inevitável que seja preservada pelo chefe de eventuais questionamentos ao seu comportamento ético. Porém, as perguntas se acumulam: por que Gabriela esconde o fato de que já conhecia Jonas, são “amiguinhos de Facebook” e tudo? Ou de que, como ele, também é de Ribeirão Preto? De que os pais dele, como os dele, também são da área de psiquatria (pai) e psicologia (mãe)? Nossa, quantas coincidências, não? Ah, nada disso coloca em cheque seu trabalho como repórter... será mesmo que não? Então aqui vai mais uma perguntinha até agora sem explicação: o que Jonas e Gabriela faziam, sobre o que conversavam, em um restaurante paulistano na semana passada? Fato testemunhado por duas pessoas dispostas a afirmá-lo em juízo?
São muitas perguntas, muitas omissões, muitos equívocos, muitos fatos fundamentais silenciados.
Um silêncio ensurdecedor.
É possível enganar poucos por um tempo, mas não é possível enganar todo mundo o tempo todo.
Em nome de Dorinha e de sua mãe, nunca vamos nos calar frente à disseminação da mentira.
A verdade prevalecerá.
Assina esta carta aberta:
Gabriela Cunha - cientista política e gestora governamental, e mãe da Inaê (1 ano e 3 meses)
Brasília, DF
Foto: eu com Dorinha e sua irmãzinha Mimi - Baixada Santista - dezembro 2010
Para conhecer mais sobre a verdade do caso Dora e a história real de uma MÃE, vejam: