Como um gato, este blogue já teve várias vidas: começou como um memorial pra consumo pessoal, hoje é uma forma de compartilhar as aventuras e aprendizados da família nesguinha, principalmente com amigos e familiares distantes!
sábado, 6 de julho de 2013
Relato de desmame aos 3 anos: nossa experiência de processo natural (com ajudinha)
quinta-feira, 9 de junho de 2011
horror institucional na Espanha: mãe e filha separadas por conta da livre amamentação!
Correção e atualização (15 junho): no texto abaixo, que fiz pouco depois de me inteirar do caso e ler um pouquinho nos links indicados, escrevi que a jovem mãe seria adolescente (15 anos), porém isso não é correto, agora, depois de me informar melhor, sei que tem 22 anos. Ou seja, não é tão menina. Mas isso não exclui todos os demais preconceitos que vem sofrendo, como jovem mãe solteira e desempregada e de origem marroquina.
Minha pequena Inaê tem cidadania espanhola, e quero que se orgulhe disso. Porém, nestes dias dolorosos, tenho tido vergonha da Espanha, ou melhor, das instituições espanholas.
Para mais informações atualizadas sobre o caso, bem como relatórios de psiquiatras, pediatras e especialistas que vêm demonstrando publicamente o absurdo dos argumentos usados pra separar a mãe e sua bebê (incluindo um texto do meu querido Dr. Carlos Gonzalez), ver o blog da rede de apoio:
http://todossomoshabiba.blogspot.com/
Minha amiga Dulce, do nosso grupo de mães-mamíferas aqui de Brasília, acaba de me mandar uma história tão, mas tão chocante, que parece até ficção...
Não é, infelizmente e pra minha dor, é tudo verdade, está circulando em um monte de blogs das redes maternas, comunidades pró-amamentação etc. e notícias de jornal por aí.
Trata-se de mais um caso de brutalidade institucional. Assim como o que foi praticado contra minha amiga jornalista, Adriana Mendes, e com a fotógrafa e videasta Elaine César, ambas brutalmente afastadas de seus filhos pelas instituições judiciais, que acataram processos com base em depoimentos fantasiosos dos respectivos pais das crianças e sumariamente suspenderam ou limitaram o contato mães-filhos. Assim como o que foi cometido contra a jovem mãezinha que amamentava seu bebezinho de colo no famigerado "visitário público" de SP.
A única diferença é que neste caso não são instituições brasileiras, e sim espanholas.
A jovem marroquina Habiba foi separada à força de sua filhinha de apenas 15 meses (um bebê exatamente da idade da Inaê), porque a amamentava livremente!
Sim, isso mesmo, é o que vcs leram: mãe e filha separadas por conta do livre aleitamento (aquele mesmo, sem horários fixos, recomendado pela OMS)! Ah sim, além de ser marroquina, ela é solteira e tem 15 anos... ou seja, contra os preconceitos e pré-julgamentos que estas 3 condições juntas provocam, não adianta nadica de nada ser uma boa mãe, amorosa e dedicada, e totalmente a fim de cuidar e acalentar e acolher seu bebê.
No centro de abrigo de mães solteiras onde ela vivia, quiseram inclusive que ela tomasse remédios pra secar o leite (horror! horror! horror institucional!).
Habiba se recusou, ela queria apenas amamentar a filha. Bom, pra resumir, a filhinha foi retirada dela há cerca de 10 dias, e depois também a jovem foi expulsa do centro.
No grupo do Facebook que criaram para apoiar Habiba e denunciar o caso, foi postado o seguinte depoimento da psiquiatra que acompanhou a jovem mãe em uma visita de UMA HORA a seu bebê:
"Siento un dolor, una impotencia y una rabia inmensas. Acompañar ayer a Habiba a la salida del centro fue durísimo, me siento testigo del linchamiento de una menor de 15 meses absolutamente inocente. Cada minuto que pasa sin su madre el daño es mayor. Habiba ayer decía "no se porque me hacen tanto daño, si quieren pegarme una paliza que me peguen a mi pero que no hagan esto a mi hija, no puedo mas..." por favor, que esto acabe ya. Difundidlo donde haga falta, que se paralice todo, no somos nada si no evitamos este daño a esta niña de 15 meses" (Ibone Olza)
É um verdadeiro horror, mas o que pra mim torna ainda mais trágico é ter sido praticado por instituições que deveriam proteger justamente aqueles mais frágeis em nossa sociedade, jovens mães solteiras pobres e, principalmente, crianças e bebês...

Um dos inúmeros blogs espanhóis desta rede denuncia que na Espanha, nas diferentes Comunidades Autônomas, as mães pobres tem ajuda de uma renda mínima por no máx. 3 meses (no Brasil nem isso, bem entendido), se depois disso não "melhoram sua situação econômica", o bebê é retirado e enviado a uma família de acolhida!! E o que mais uma mãe que está no pós-parto pode fazer senão cuidar do seu bebê por período integral? Como, pelas deusas, sair pra buscar emprego se há um recém-nascido para amamentar e cuidar? É absolutamente incompreensível!
Como diz minha amiga Dulce, a história de Habiba, a jovem mãe marroquina, traz uma "mistura de xenofobia com autoritarismo, misoginia e mais 5 milhões de tipos de preconceitos nojentos".
Estou aqui divulgando, não posso me calar. Todas somos mães. Todas somos Habiba!
Para quem tá no Facebook, a página do grupo de apoio é esta aqui.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Amamentar: o quase-tabu...e a dor pela mãe que amamentava no visitário
O caso está longe de ser único, todos os dias ouço mães que relatam ter sofrido críticas e até ameaças por amamentarem seus filhos em público. Se a criança tiver mais de 1 ano então, apanha... Mais de 2 anos? Vixe, aí é crucificação e linchamento na certa. Tudo isso num país onde é normal mulherada de peito de fora em comercial da tv e desfile de carnaval, mas mãe amamentando filho é ofensivo, e virando um quase tabu.
Gostaria de não me incluir nessa, mas pra meu desgosto me incluo. Na escolinha da Inaê a diretora me pediu pra passar a amamentar minha filhinha em um recinto fechado, longe dos meninos mais velhos (4, 5 anos) que estavam começando a "falar coisas". Confesso que não tive reação e acatei, mas até hoje não digeri bem. Como assim, "falando coisas"? A maldade e a perversão que houver está toda na cabeça de adultos, nunca de crianças muito jovens, que deveriam, ao contrário, aprender que amamentar é natural e bonito. Por isso já decidi: vou levantar o assunto junto à escola.
Aliás, aqui está uma excelente reflexão sobre a importância do processo natural de aprendizado que acontece com crianças muito novinhas quando expostas ao ato de amamentar (o link é em inglês, mas pra quem não lê vale a pena ao mesmo dar uma olhada nas fofos, muito fofas)...
Agora uma nota mais chocante e profundamente dolorosa, sobre o caso relatado por minha amiga Dri, que enfrenta a batalha pela volta de sua filhinha Dora, como já contei antes.
A Dri, jornalista que escreve lindamente com a razão e o coração, e dona de uma memória prodigiosa, fez mais um relato sobre a época do famigerado "visitário" público de São Paulo, então o único lugar em que muitos pais e algumas mães em disputa de guarda como ela tinham para desesperadamente ver seus filhos bebês e crianças.
É o relato da jovem mãezinha que amamentava seu bebê nas escassas visitas quinzenais. Sim, vocês leram isso mesmo, um bebê QUE AINDA MAMAVA arrancado de sua mãe, sob a justificativa de que ela estava deprimida. Alguém consegue pensar numa maneira mais fantástica de ajudar uma mãezinha com depressão do que arrancando seu bebê?
Não consigo nem relatar mais que já começo a chorar de novo, aliás só de lembrar daquele horrendo "visitário" que conheci ao visitar Dorinha lá uma vez já me vem o nó na garganta.
Quem quiser ler o relato inteiro por favor visite o blog da Dri, o post está aqui.
Pra mim o mais inaceitável de tudo isso é a brutalidade institucional. Sim, tudo feito ao amparo de instituições judiciais. A ruptura do sagrado vínculo mãe-bebê, legitimada por trâmites legais.
Só que no caso da mãezinha do visitário, tudo infinitamente mais doloroso e desesperador, um crime promovido por indivíduos e instituições que jamais terá volta, pois este o primeiro ano daquele bebezinho (e o segundo? e o terceiro? o que terá acontecido com esta mãezinha, pelas deusas?) jamais terá volta, a dor desta brutalidade pra sempre impressa na sua história.
Por isso relatamos e denunciamos.
Contra isso nos manifestamos.
Não vamos nos calar.
terça-feira, 19 de abril de 2011
introdução de alimentos e continuação da amamentação: um relato familiar
1 – desmame ou complementação?
O uso da palavra “desmame” hoje me parece altamente equivocado, pois a introdução de alimentos NÃO significa que o bebê vai parar (ou começar a parar) de mamar. Por isso é que nas comunidades pró-amamentação se fala em “introdução de alimentos complementares”.
Nas págs. 27-29 do Guia do MS, há argumentos dizendo da queda calórica do leite materno a partir dos 6 meses, mas já ouvi casos de mulheres que optaram por manter o exclusivo além disso, até perto de 1 ano! No nosso caso, acabamos começando só lá pelos 6 meses e meio, quase 7, quando a Inaê finalmente sentou sozinha, o que pra gente foi um super-sinal do momento mais propício.Primeiro, não há dogmas. Achei muito interessante que a pediatra da Inaê não me “ensinou” nada, apenas relatou como foi com ela (e ela amamentou a filha até 2,5 anos, ou seja, fez na prática o que estou falando aqui). Você pode fazer como quiser, primeiro fruta ou primeiro legume, repetir o mesmo alimento vários dias ou inserir um diferente a cada dia, começar pelo lanche da manhã ou pelo almoço etc. etc. As possibilidades são muitas e vão depender dos arranjos e estilos da família.

A explicação é simples e faz todo sentido, se a comida for líquida demais o bebê enche a barriguinha de líquido e ingere muito menos nutriente. Posso dar meu testemunho das vezes em que dou suco à Inaê: como tem o docinho da fruta, ela adora, aí não é só pra matar a sede como os golinhos de água, ela fica bebendo, bebendo, bebendo...! Por isso, pra matar a sede, nada melhor do que água, ou chás. Eu adoro fazer chá de hortelã pra ela e oferecer frio (e sem açúcar, óbvio), é como um suco deliciosamente refrescante!
Para legumes, carninha, arroz etc., basta dar uma amassadinha ou cortar/desfiar, não precisa nem triturar, muito menos colocar água e fazer sopa.
A primeira refeição que consolidamos por aqui foi o café da manhã, que geralmente começava com uma meia laranja lima (descascada e sem sementes) que a própria Inaê segurava sozinha pra chupar, antes de comer banana ou mamão com aveia, e depois um pedacinho de pão que ela também pegava com as mãozinhas. Aos poucos foi pegando sozinha de tudo: frutas (algumas são ótimas pra segur ar, como manga), pão, brócolis, cenoura, carne, até osso de galinha (só tome cuidado pra tirar aquele osso agulhinha).

Bom, aí está como funcionou conosco, espero que ajude outras mães nesta fase como me ajudou na época ler diferentes relatos, porém sempre tirando minhas próprias conclusões e fazendo as adaptações. E o maior objetivo deste relato familiar e da partilha de informações de fontes bacanas foi reforçar que a continuação natural da amamentação pode muito bem conviver com a introdução de alimentos!

Introdução de Sólidos, por Dr. Carlos Gonzalez

Para esclarecer, quando mencionamos “sólidos”, não nos referimos apenas aos alimentos oferecidos ao bebê com uma colher. Usaremos o termo para referir-se a qualquer comida além de leite humano ou leite modificado, mesmo água, chá ou comidas duras como biscoito.
Incapaz de seguir todas as regras ao mesmo tempo, muitas vezes a mãe opta por rejeitar todas e fazer somente aquilo que ela quer. O risco é de que ela ignore as recomendações realmente importantes. Para evitar tal problema, vou diferenciar claramente entre as opções onde há um grau de consenso em relação à sua importância (baseadas numa combinação de normas internacionais) e aquelas sugestões que parecem úteis, embora outros profissionais possam ter opções diferentes.
Pontos Importantes
Tenha em mente os seguintes pontos, embora eles não devam ser tomados como dogma:
1. Nunca force uma criança a comer.
2. Amamente exclusivamente até 6 meses (sem papinhas, suco, água, chás, etc.).
3. Aos 6 meses, comece (sem forçar) a oferecer outros alimentos, sempre depois da mamada ao seio. Bebês não amamentados devem tomar 500ml de leite artificial por dia.
4. Introduza os alimentos um de cada vez, esperando uma semana entre comidas novas. Comece com quantidades pequenas.
5. Ofereça alimentos que contêm glúten (trigo, aveia, centeio) com precaução.
6. Quando cozinhar para o bebê, escorra bastante o alimento, evitando encher a barriga dele com água.
7. Espere até 12 meses de idade para introduzir alimentos altamente alergênicos (especialmente laticínios, clara de ovo, peixe, soja, amendoim e muitas outras comidas que já causam alergia em membros da família).
8. Não acrescente sal ou açúcar aos alimentos.
9. Continue amamentando por 2 anos ou mais.
Desmame: fatos e mitos, por Dra. Elsa Giugliani
O homem é o único mamífero em que o desmame (aqui definido como a cessação do aleitamento materno) não é primariamente determinado por fatores genéticos e instinto, sendo fortemente influenciado por fatores sócioculturais.
Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr, falar. Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir a maturidade para tal.
Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um antigo pediatra, recomendava: "Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional". Essas palavras sábias podem ter pouco respaldo em sociedades individualistas, que tendem a acelerar o processo de independização do ser humano, substituindo o seio por métodos de auto-consolo como chupetas, paninhos, mantinhas, ursinhos, etc.
Segundo diversas teorias, o período natural de amamentação para a espécie humana seria de 2,5 a sete anos. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde recomenda aleitamento materno por dois anos ou mais, sendo exclusivo nos primeiros seis meses. Apesar dessa recomendação, poucas mulheres no Brasil amamentam por mais de dois anos.
As razões para a não amamentação prolongada variam desde dificuldade em conciliar a amamentação com outras atividades, até crença de que aleitamento materno além do primeiro ano é danoso para a criança sob o ponto-de-vista psicológico. Uma parcela de mães, apesar de demonstrar desejo em continuar a amamentação, sente-se pressionada a desmamar por profissionais de saúde, seus maridos, parentes, vizinhos e amigos.
Para a manutenção do paradigma que sustenta a afirmação de que amamentação prolongada não é natural, foi necessário criar vários mitos, tais como o de que uma criança jamais desmama por si própria, que a amamentação prolongada é um sinal de problema sexual ou necessidade materna e não da criança e que a criança que mama fica muito dependente.
Algumas mães, de fato, desmamam para promover a independência da criança. No entanto, é importante lembrar que o desmame provavelmente não vai mudar a personalidade da criança. Além disso, o desmame forçado pode gerar insegurança na criança, o que dificulta o processo de independização.
O desmame pode ser agrupado em quatro categorias básicas: abrupto, planejado ou gradual, parcial e natural. Sob a ótica de que o desmame é um processo de desenvolvimento da criança, parece razoável afirmar que o ideal seria que ele ocorresse naturalmente, na medida em que a criança vai adquirindo competências para tal. No desmame natural a criança se auto-desmama, o que pode ocorrer em diferentes idades, em média entre dois e quatro anos e raramente antes de um ano.
O desmame abrupto é desencorajado, pois se a criança não está pronta, ela
pode se sentir rejeitada pela mãe, gerando insegurança e muitas vezes rebeldia. Na mãe, o desmame abrupto pode precipitar ingurgitamento mamário, bloqueio de ducto lactífero e mastite, além de tristeza ou depressão, por luto pela perda da amamentação ou por mudanças hormonais.
Muitas vezes a mulher se depara com a situação de querer ou ter que desmamar
antes de a criança estar pronta. Nesses casos, o profissional de saúde, em especial o pediatra, deve respeitar o desejo da mãe e ajudá-la nesse processo. O Quadro 3 apresenta os fatores que facilitam o encorajamento do bebê para o desmame.
A técnica utilizada para fazer a criança desmamar varia de acordo com a idade da mesma. Se a criança for maior, o desmame pode ser planejado com ela. Pode-se propor uma data, oferecer uma recompensa e até mesmo uma festa. A mãe pode começar não oferecendo o seio, mas também não recusando. Pode também encurtar as mamadas e adiá-las. Mamadas podem ser suprimidas distraindo a criança com brincadeiras, chamando amiguinhos, entretendo a criança com algo que lhe prenda a atenção. A participação do pai no processo, sempre que possível, é importante.
A mãe pode também evitar certas atitudes que estimulam a criança a mamar, por exemplo, não sentar na poltrona em que costuma amamentar. Algumas vezes, o desmame forçado gera tanta ansiedade na mãe e no bebê, que é preferível adiar um pouco mais o processo, se possível. A mãe pode, também, optar por restringir as mamadas a certos horários e locais.
As mulheres devem estar preparadas para as mudanças físicas e emocionais que o desmame pode desencadear, tais como: mudança de tamanho das mamas, mudança de peso e sentimentos diversos, tais como alívio, paz, tristeza, depressão, culpa e arrependimento.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Lugar de recém-nascido é no peito
Taí um tema que mexe comigo como poucos.
Já me disseram que consegui me entregar ao meu instinto ancestral de fêmea mamífera no processo da gestação e do parto. Porém, eu mesma acho cada vez mais que esta entrega só veio inteira um pouco depois: na amamentação.
Hoje em dia se recomenda – ao menos em tese – amamentar em livre demanda, ou seja, sem horários fixos, quando e enquanto o bebê solicitar, respeitando a sua individualidade. É o que prega o próprio Ministério da Saúde, seguindo a Organização Mundial de Saúde. Infelizmente, isso não impede que muitos pediatras insistam em recomendar intervalos pré-determinados mesmo que disfarçados de maior flexibilidade, além é claro de sempre existirem avós, tias, vizinhos etc. que se horrorizam com a voracidade e total ausência de horários dos nossos “pequenos selvagens”...
Mas afinal, como funciona na prática esta tal livre demanda?
Cena 1: o pequenino recém-nascido acabou de mamar faz 15 minutos, mas já está chorando de novo e só se acalma no peito... Mas já? De novo? “Ih, o seu leite está fraco, não está sustentando ele, acho que vai ter que dar complemento de NAN”.
Cena 2: a bebezinha de apenas 1 mês está mamando há quase 2 horas, já cochilou várias vezes mas não parou de sugar, e acorda sempre que a mãe tenta tirá-la do peito. “Ih, melhor dar logo uma chupeta, senão ela só vai querer saber de ficar chupetando (sic) no seu peito”.
Gente, o problema é grave, gravíssimo, e gostaria muito de aprofundá-lo, pois infelizmente tenho visto, todos os dias, mães que – por desconhecimento e insegurança, principalmente diante da chuva de palpites alheios – acabam tomando decisões que podem levar ao desmame precoce.
Não estou falando só da introdução da chupeta ou de leites artificiais, é mais do que isso: uma certa incompreensão do que realmente significa amamentar o bebê.
Amamentar é MUITO mais do que só o alimento!
Amamentar é o colo, o aconchego, o vínculo. O bebê muito novinho necessita imensamente deste contato, dessa proximidade física quase que contínua. A propósito, lembram dos links que já citei aqui sobre a exterogestação ou teoria do “quarto trimestre”?
O bebê recém-nascido passou por um choque tremendo, talvez o maior choque da vida humana: sair de uma experiência de plenitude absoluta, onde simplesmente não existe frio, fome, desconforto etc. para o mundo aqui fora, onde de cara o bebê tem que começar a lidar com todas estas sensações que até então desconhecia!
Então ele procura instintivamente o que lhe traz a memória daquele lugar de plenitude, que é o seio da mãe: seu cheiro, seu toque, seu calor – além da nutrição propriamente dita.
Acontece que ninguém, em nenhuma palestra sobre amamentação, nem nos grupos sintonizados com as opções humanistas, explica de verdade pras grávidas de primeira viagem o que realmente é a livre demanda bem no início. Ou pode ser que até tentem, mas nenhuma de fato interioriza aquilo até realmente vivenciar. E afinal, o que é a livre demanda? Livre é livre MESMO. Até existem bebês que se saciam rapidamente e não têm maior necessidade de sucção não-nutritiva, mas outros bebês (e pelo que tenho visto por aí, eu diria a maioria) podem passar HORAS no peito, aí dá uns 15, 20 minutos e lá está ele no peito de novo!!!!
E aí não tem jeito, vão chover os palpites!
É palpite de todo o lado de que o bebê tá querendo só “chupetar” (um termo abominável e nocivo, que eu decidi riscar da minha vida), que este choro é cólica, que é “manha” (outro termo que risquei da minha vida), ou pior, que o seu leite é “fraco”, é “pouco”, e por isso ele chora tanto etc. etc., e outros vários mitos que nas comunidades pró-amamentação sabemos que são totalmente infundados, pois simplesmente não existe leite materno fraco ou insuficiente.
Sim, o bebê chora, sim, o bebê quer continuar a sugar, e não, não é porque o seu leite é fraco ou pouco ou porque ele está fazendo “manha” e quer “chupetar”, mas simplesmente porque ele é um bebezinho muito, muito novinho, e que necessita exatamente disso: ficar grudado praticamente 24 horas no seu peito!!!
Mas imagina ceder a este instinto nos dias de hoje!!! É socialmente inaceitável, praticamente um tabu. Uma situação que incomoda demais pessoas ao redor, sejam familiares, amigos, vizinhos, colegas, pra não falar dos profissionais: pediatras, psicólogos... Mas o triste é que incomoda também muitas mães, cada vez mais...
Agora vou dar aqui meu depoimento pessoal:
Eu passei por esta crise!
Quando a Inaê tinha mais ou menos 4 semanas, eu me encontrava no auge da insegurança se estava realmente “fazendo certo” em deixar que ela mamasse à vontade, porque ela passava simplesmente o dia TODO grudada em mim. Quando dava, eu conseguia fazer o básico, e aí o básico é básico mesmo, tomar um banho, comer etc. (e não adianta se iludir: mãe de recém-nascido tem que rever prioridades, sim).
Mas aí eu parei, respirei fundo e tomei uma decisão libertadora pra mim: parar de pensar com a minha cabeça de "mulher do séc XXI", com agenda lotada, com intensa vida social, profissional, acadêmica, com mil e-mails pra responder etc. etc., e agir com meu instinto de bicho mesmo.
Foi quando eu decidi que seria tal qual uma gatinha amamentando a cria recém-nascida. Já viram uma gata parida? Ela fica lá, estirada o dia todo, o dia todo mesmo, só de vez em quando levanta e vai comer algo e tomar uma água, aí já tá de volta aos filhotes. Isto é instinto, está inscrito profundamente na nossa essência mamífera.
E aí, depois que eu decidi que eu ia ficar “surda” aos palpites (inclusive aqueles travestidos de opinião profissional) e ia virar uma “gatinha”, aí eu relaxei totalmente e pude curtir intensamente esta proximidade sagrada com minha filhinha, que eu desejei e esperei tanto.
Mesmo no auge dos dias/noites (porque nessa fase tudo se funde) mais cansativos, eu sempre senti mais prazer e êxtase do que cansaço ou irritação. E se batia o cansaço mesmo, o segredo era ficar “namorando” minha florzinha, meu corpo se inundando de ocitocina, o hormônio do amor, meu coração e mente em conexão profunda com ela e com a maternagem.
Tem gente que pode pensar: “mas que maluquice!”
Então vou contar outra coisa: esta fase passa rápido. MUITO rápido.
Nenhum bebê de 4 meses pra cima quer ficar 24 horas grudado na mãe como um recém-nascido. Ou seja, passa tão rápido que daqui a pouco se tem saudades, e até um possível arrependimento, se não se curtiu este iniciozinho grudadinho como poderia (pra não falar no que nem sabemos que pode causar nos vínculos com o bebê...)
E aí sabem o que vai acontecer quando esta fase passar? O bebê, inundado de sentimentos de confiança e segurança e amor que a mãe passou pra ele, através da sua DISPONIBILIDADE INTEGRAL, que pra mim é a palavra-chave da maternagem neste período inicial, vai cada vez mais:
- espaçar sozinho as mamadas e soltar o peito assim que estiver satisfeito, porque a necessidade de sucção não-nutritiva vai ficando menor.
- o ambiente ao redor (que simplesmente inexiste pros bebês antes dos 3 meses) vai se tornar imensamente interessante, tanto que muitas vezes eles até deixam de mamar pra ficar prestando atenção no que está em volta.
- outros vínculos assumirão cada vez mais importância, a começar pelas pessoas que moram junto com ela, seja o papai, os avós ou outros.
- ele vai descobrir as mãozinhas (se não introduzirem a maldita chupeta, não cobrirem com luvinhas etc.), um maravilhoso sinal de desenvolvimento do bebezinho, e alguns podem até começar a sugar os dedinhos quando sentirem às vezes aquela necessidade. E, como me explicou a pediatra da minha filha – que felizmente me apóia em não usar a chupeta – este negócio de sugar os dedinhos vai passar também (se este é o caso do seu bebê, acredite: sugar os dedinhos é muito melhor pra ele do que chupeta, outro tema que um dia vou abordar por aqui).
Sobre possibilidades de escolha e a escolha pela entrega
Eu penso assim: se você tem esta possibilidade de ficar só por conta do seu bebê neste início, o que são 3 meses da vida fazendo o “sacrifício” (mas eu prefiro não ver como sacrifício e sim como alegria, prazer, amor incondicional) de ficar com seu bebê grudado em você? NADA. Não vai fazer a menor diferença pra sua vida profissional, social ou conjugal. Agora, estes meses iniciais de contato permanente com seu bebê vão ser tudo pra ele. TUDO.
Cada qual é que pode fazer suas próprias escolhas – e infelizmente, neste mundo desigual e injusto, muitas mães sequer têm esta possibilidade de escolha. Frequentemente, porém, é muito mais por pressão de persistentes tabus sociais sobre a maternidade que se busca um monte de argumentos pra justificar por que não se dedicar integralmente ao bebezinho neste período inicial.
E a propósito, na contramão dessa história: mesmo na ausência de condições ideais, quando se quer realmente, é possível garantir o aleitamento exclusivo e compensar a necessidade de proximidade intensa. Conheço casos de mulheres guerreiras que se desdobraram em mil pra isso, cada qual à sua maneira (e as maneiras são várias). Aqui vai minha admiração materna e eterna a essas mães!
O meu caminho, com todo respeito às demais escolhas e suas razões, foi o da entrega integral.
Sabem, sempre penso que minha filhinha nunca mais será pequenininha assim de novo, agora já está crescendo, vai crescer e crescer mais, depois vai querer ter o próprio quarto, aí pedir pra ir na casa das amigas, aí quando me der conta já estará – para meu orgulho – fazendo seus próprios vôos-solo.
E neste dia eu já terei esquecido (aliás, hoje em dia até já esqueci) do lado cansativo... mas me lembrarei para sempre do lado delicioso de ter um bebê recém-nascido grudadinho no peito!
PS: como eu digo sempre aqui, cada família tem seu próprio arranjo, o que dá certo pra umas não necessariamente vai funcionar pra outras. Feita a ressalva, aqui vão algumas informações práticas que funcionaram muito aqui em casa nesta fase inicial, espero que ajude:
- aproveitar pra ler muuuuito: me lembro de ficar lá com a Inaê grudadinha durante horas, lendo, lendo, lendo (inclusive relendo os dois volumes-tijolões de Musashi). Algumas conseguem até ficar mexendo na internet com o bebê mamando ou cochilando no colo (mouse sem fio ajuda muito). Aliás, aproveita mesmo, porque depois é difícil fazer isso, porque como eu disse antes, tudo em volta passa a distrair o bebê e aí ele não vai conseguir mamar se você estiver lendo!
- abusar do sling: dá pra usar desde o primeiro dia de vida do bebezinho, e é ótimo pro bebê ficar "pendurado" na mãe sem que ela deixe de fazer algumas outras coisinhas, e assim não se sinta tão cansada ou aborrecida de esperar acabar a sucção que ele eventualemente necessite (mas de novo, reforço o que disse sobre rever as prioridades)
- amamentar deitada e dormir com o bebê: todo mundo fala pra uma recém-mãe dormir quando o bebê dorme, nem todas seguem isso e, no entanto, é uma das dicas mais valiosas nesta fase inicial, e ajuda a passar de um modo muito mais gostoso e recompondo energias.

