
Era minha avó, minha avózinha Lila, bisa de Inaê e Rudá... porém de certa forma já não era... Não mais a avó com quem convivi durante toda a infância e de quem guardo lembranças queridas...
Há muitos anos ela já estava sofrendo com o maldito mal de Alzheimer, o que fez com que fosse escapando aos pouquinhos de nós... até não mais nos reconhecer, depois não conseguir mais se comunicar, depois sequer andar...

Histórias de situações ou acidentes com pessoas conhecidas e desconhecidas com as quais ela sonhava, e no dia seguinte ficava sabendo que tinham acontecido de verdade...
Nunca saberei ao certo o que aconteceu nestes episódios que ela relatava, porém eram definitivamente relatos que me prendiam tanto a atenção que por um tempo, numa das viagens ainda adolescente, até pensei em coletar tudo e colocar por escrito... (pena não ter feito).
Nas minhas lembranças, ela tinha a personalidade forte, era elegante, e gostava de ser independente. Após ficar viúva preferiu permanecer morando sozinha, no apê em que ficou até dois anos atrás, quando não havia mais a menor condição de que ela permanecesse lá, mesmo com ajuda de enfermeiras... De lá, foi para uma casa especializada de atendimento de idosos, porém acho que foi a decisão mais acertada dos seus filhos (e em particular de minha tia Márcia, a única filha, e que cuidou mais de perto da mãe mesmo morando em outro país - já que a função do cuidado acaba na maioria das vezes sendo mesmo uma questão de gênero) que ela tivesse ficado até não dar mais lá no seu pequenino apê. Pois minha avó de espírito teimoso e opiniões firmes não teria aceitado ter ido, ainda lúcida, pra uma casa de idosos... Lá chegando, até ficou melhorzinha um tempo, mas depois a doença foi ganhando espaço de novo, e cada vez mais...
Passou por muitos momentos duros, o mais cruel a perda trágida do filho caçula, meu tio Beto em 2009... Quiçá ali a doença do esquecimento tenha encontrado as portas abertas pra entrar com tudo, pois como viver lembrando de uma saudade assim?
Nos últimos anos, já não nos reconhecia, nem mesmo seus filhos. Foi nossa última imagem dela, já na casa que foi seu último lar. Infelizmente, pra nossa imensa tristeza, não pôde conhecer o Rudá - e nem o teria reconhecido como bisneto (e morreu poucos dias dele completar 1 aninho e eu 38... e se foi em setembro, assim como minha outra vó, Nélia, há 1 ano atrás).
Mas mesmo nesta ocasião de nosso último encontro, quando Inaê tinha pouco menos de 3 anos, e que está registrada aqui nas últimas fotos, ainda revelava sua grande afetividade. Tinha adoração pelo "neto" Angel, assim como minha outra avó (um conquistador de vovós, ele que não conviveu com nenhuma das suas...) e mesmo já com o mal avançado, demonstrava seu carinho conosco... Teria vislumbrado algo do passado?

PS: Lila morreu no mesmo dia de nascimento do meu vô Alfredo, o grande amor da sua vida, e por quem ela chorou longo tempo quando ele se foi ainda jovem (eu tinha uns 12 anos)... Quando comentei isso com minha mãe, que me deu a notícia, ela disse "ele veio buscá-la". E assim gosto de acreditar, igualzinho como se fosse em mais um dos contos ou relatos com toques de espiritismo que a vó me contava...
VIVA LILA! Saudades...
(29 de dezembro de 1929 - 5 de setembro de 2014)
❤❤
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